quarta-feira, 6 de abril de 2011

O fotojornalismo cidadão

No início da adaptação dos jornais na rede, pouco se discutia sobre o fotojornalismo. Fotografia, Blogs e Jornalismo Cidadão na internet: Apropriações e Simbioses, de Marcos Palácios e Paulo Munhoz, publicado na coletânia de Suzana Barbosa: Jornalismo Digital de Terceira Geração (2007, da Universidade da Beira Interior), coloca em foco a fotografia digital proveniente da mídia participativa no momento da proliferação de blogs.

A história da fotografia é marcada pela evolução rápida e constante dos meios de reprodução técnica. É a representação visual gráfica de um evento, local ou momento. Os processos mais recentes de atualização afetam a comunicação como um todo. Tais artifícios mudaram não apenas a composição física das imagens, mas seus usos e a velocidade de sua divulgação. É função do fotógrafo, então, determinar o momento em que a imagem congelada representará a mensagem a ser disseminada, algo que Cartier-Bresson chamou de instante decisivo.
Ao fotojornalista cabe, portanto, lançar um olhar noticioso ao ambiente e extrair dele uma notícia em formato fotográfico. Coisa que o cidadão comum não é totalmente apto a fazer. Os autores concordam que para se atingir esse filtro cultural é preciso uma formação técnica e humana que torna a pessoa capaz de processar informações em notícias.
A fotografia digital permitiu que a instantaneidade ultrapassasse os limites, até então conhecidos, da produção e distribuição imagéticas. O trabalho fotográfico atingiu volumes imensuráveis e, como um fenômeno de massificação, a portabilidade das câmeras digitais, utilizadas por indivíduos de quase todas as classes e idades, produz um efeito de profissionalização em qualquer pessoa.
  
Os autores delimitam a evolução cronológica a que foram submetidas as tecnologias fotográfica, digital e da rede. Com a evolução da banda larga, esse processo de envio de imagens ficou mais fácil. Logo as máquinas fotográficas digitais começaram a ficar mais baratas e o número de usuários de internet também aumentou bastante. Com o surgimento dos blogs, a fotografia passa a ter um caráter ilustrativo. A difusão do formato de blogs em toda a rede abre caminho para um novo formato.

Em 2002, Adam Seifer, Scott Heiferman e Spike criaram um novo tipo de plataforma, gratuito, dinâmico e adaptado à postagem de imagens, o fotolog.net. Com características muito parecidas com às dos blogs, enfatizava, porém, a fotografia digital. Os autores sugerem que a rápida difusão desse tipo de plataforma estimulou a multiplicação de sites e redes sociais fotográficos. Palácios e Munhoz fazem a distinção entre quatro categorias: blogs fotojornalísticos, fotologs fotojornalísticos, fotologs jornalísticos de clipagem e fotologs jornalísticos de discussão.

Segundo os autores, grande parte dos fotologs tem caráter pessoal, artístico, temático ou profissional. Por outro lado, nem todos os flogs jornalísticos tem a função da denúncia social. A função capital da fotografia é levar o leitor ao local do evento fotografado. Uma das funções sociais da fotografia é interferir e transformar o meio observador, esperando que seu impacto gere também mudanças no meio observado.

Palácios e Munhoz atentam para o fato de que o ataque ao WTC talvez tenha sido o evento que abriu as portas para uma cultura de exploração das imagens digitais multimidiatizadas e que, provavelmente, tenha sido essa a fatalidade cujas imagens foram as mais exploradas e divulgadas.
A fotografia é um veículo de observação, informação, análise e opinião e, como tal, deve servir a um fim comucacional. É uma técnica associada à determinada linguagem e seu domínio permite a qualquer pessoa usá-la a favor da comunicação. No fotojornalismo não é diferente. Trata-se de aplicar um procedimento e uma linguagem ao formato jornalístico e, neste sentido, o avanço da fotografia digital e a flexibilidade na concepção das imagens aproximaram três processos distintos: a captação, a distribuição e a visualização imagéticas, estágios essenciais na sociabilização do trabalho fotográfico.

Foi durante a guerra no Iraque que jornalistas começaram a criar blogs e fotologs produzidas por eles mesmos ou captadas na rede. Em dezembro de 2004, milhões de imagens geradas da catástrofe das Tsunamis circularam pela rede com histórias e dados inéditos sobre o incidente. Em 2005, ao atentados à bomba no metrô de Londres representam um novo momento de virada da produção e difusão do jornalismo cidadão, como afirmam Palácios e Munhoz (2007, p. 73)

A situação é descrita pelos autores como paradoxal. Ao mesmo tempo em que a disputa por espaço entre texto e imagem chegava ao fim, a fotografia enfrentava a limitação dos uploads infindáveis e a baixa velocidade de transmissão de pixels. As limitações impediam o aproveitamento completo dos potenciais que a nova mídia oferecia, como interatividade, hipertextualidade, atualização contínua, personalização, memória, além do conteúdo multimidiatizado. As limitações de suporte tornavam o documento superficial e subaproveitado do ponto de vista estético. Além disso, as limitações de suporte reduziam a aplicação de mecanismos de interatividade. Sobre a evolução do espaço editorial legado ao leitor, Palácios e Munhoz analisam:

“No que concerne a produção de textos escritos, o leitor sempre teve seu espaço bastante limitado e claramente demarcado em termos espaciais, tradicionalmente ocupando uma parte da Página de Opinião dos jornais e revistas. Além disso, essas contribuições esporádicas do leitor sempre tiveram um caráter marcadamente reativo ao noticiário propriamente dito” (2007, p. 66)

A profissionalização do fotojornalista é conseqüência do pictorialismo oitocentista, movimento que pretendia distinguir seus adeptos dos fotógrafos passivos. O caráter profissional dos fotojornalistas é, portanto, bastante recente. As últimas décadas do século 19 foram de suma importância na organização de uma classe que, atualmente, tem o domínio da produção laboral bastante descaracterizado.
Analisando o que diferencia um fotojornalista de um cidadão comum que abastece um veículo com fotografias de um instante noticiável, concluo que a caracterização do fotojornalista não deve estar necessariamente ligada à profissionalização, mas ao vínculo com o veículo de divulgação de notícias, seja ele um blog, revista, jornal impresso, portal de informações ou outro.  Assim, o que os autores denominam fotojornalismo cidadão abre portas para o amadorismo generalizado do fotojornalismo.
Palácios e Munhoz defendem a ideia de que a participação do leitor na produção editorial começou com a fotografia e que o recurso textual utilizado pelo leitor sempre foi limitado e demarcado, em termos espaciais, à página de opinião dos jornais, com caráter reativo ao noticiário. Porém, até a popularização da fotografia, a contribuição de leitores de imagens de conteúdo jornalístico era bastante rara, devido a pesados equipamentos e materiais extremamente caros.  
Para os autores, a fotografia inaugura “a participação do leitor enquanto produtor direto de informação jornalística incorporada a um veículo de imprensa” (2007, p. 65). A participação do leitor, aliada à pluralidade de meios de produção, leva a um modelo de interatividade, já vista em modelos impressos, porém melhor explorada em veículos adaptados à plataformas virtuais ou outros produzidos em suportes da internet.
Assim, o jornalismo cidadão:
 “deve ser entendido como direito do cidadão de expressar os problemas da sociedade, preenchendo um papel de ativista político, defensor dos valores como rejeição à corrupção, defesa dos direitos dos cidadãos, igualdade no tratamento e na aplicação das leis” (ABREU, 2003, p. 38).

Os autores, porém, afirmam que para ser considerada fotojornalismo, a imagem deve respeitar aos critérios de noticiabilidade, especialmente “que interesse aos leitores, ou que seja inusitada, que surpreenda. O que se publica são fotos, muitas vezes independentes do caráter jornalístico. Ai está o paradoxo do fotojornalismo cidadão.

Enquanto as ferramentas permitem ao cidadão participar da produção de conteúdo, disponibilizá-lo a um grupo cada vez maior de internautas e permitir sua disponibilização cada vez mais simplificada e eficiente, o fotojornalismo cidadão é incapaz de dar “forma jornalística acabada a todo esse material que se faz disponível, fornecendo um contexto interpretativo a essa poeira informativa produzida em primeira pessoa, de maneira que ela venha a adquirir significado e se torne conhecimento”. Trata-se de um jornalismo em primeira pessoa, muitas vezes produzido pela própria fonte.

Referências Bibliográficas

ABREU, Alzira Alves de. Jornalismo Cidadão - Brasil em transição: um balanço do final do século XX. Rio de Janeiro, 2003. Disponível:        http://www.cpdoc.fgv.br/revista/arq/339.pdf. Acessado: 08/11/2009

PALÁCIOS, Marcos, e MUNHOZ, Paulo. Fotografia, Blogs e Jornalismo Cidadão na         internet: Apropriações e Simbioses, in: BARBOSA, Suzana. Jornalismo Digital          de Terceira Geração. Covilhã, Portugal, 2007, Editora da Universidade da Beira Interior.

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