domingo, 5 de junho de 2011

Café da manhã com John Jairo

É manhã fria de um domingo de junho. Tomo um chá de frutas silvestres com biscoitos, imaginando de que selva teriam saído cores tão reluzentes. Um roxo acobreado, cor de um Bordeaux jovem refletido pelo sol. Leio meus habituais dois livros por vez. Começar é um delírio. Terminar, nem sempre uma missão cumprida. Às vezes é enfadonho. Sempre evito encontrar os fins.
Leio Todos los locos hablan solos, de John Jairo Junieles, escritor colombiano de fino trato, coração aberto e mente gigantesca. Leio também a carceregrafia de Ingrid Betancourt, ‘Não há silêncio que não termine’. Esta fase colombiana que vivo aperta o meu peito até quase me fazer querer dormir. De tantas pessoas que se puseram em meu caminho e viagens que fiz em vida ou em minha imaginação, a semana cartageneira parece ter sido a mais intensa, crua e verdadeira. As respostas que encontrei e o reforço de alma que recebi de meus irmãos colombianos são uma espécie de emplastro, que cura minhas novas mazelas burguesas e alimenta minha vontade de seguir.
John Jairo, que se coloca como um companheiro escritor, é brilhante. Sua escolha pelas palavras perfeitas é uma atitude natural. Se eu não o tivesse conhecido, se não tivesse recebido de suas mãos este exemplar testemunho do Bicentenário de Independência de Cartagena, pensaria em seus esforços para obter páginas em sintonia, descrições sucintas, porém complexas de ambientes que vi, ou imagino ter visto nestes dias de vida colombiana.
O olho engana a alma, mas as palavras buscam seu caminho, obcecadas pelo sentido. Forjam a compreensão, sem rodeios. As mais bonitas delas não podem ser confundidas. Podem até permitir uma profusão de respostas, mas essas, especiais, não martirizam o leitor. Não espremem sua a cuca. Estas palavras, senhor, em seu devido lugar, transparecem a certeza de seu eleitor. Como aquelas que elege John Jairo.
E em uma rua vazia da cidade o telefone público soa insistentemente, e se for Deus perguntando pelo homem, reflete John Jairo em um de seus contos. Tal seria a resposta: tarde demais para desculpas. E seguiria fumando seus antigos cigarros.

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