quinta-feira, 12 de maio de 2011

Corpo coberto, corpo a mostra

Em uma piscina pública da cidade de Bordeaux, a estonteante moça argentina, de um mentro e oitenta e cabelos longos e loiros, é convidada a se retirar do banho coletivo. O motivo: um biquini branco que cobria seu busto e seus quadris com um leve recorte acentuado nas nádegas. Uma burca, se comparado aos biquinis brasileiros do alto verão 2007. A galega se recusa a sair. Bate o pé e argumenta: e aquelas mulheres em top less?

Na mesma rua, a metros dali, uma concentração de mulheres islâmicas se dirigem em véu e longos vestidos à associação de quarteirão, onde serão recebidas por duas professoras aposentadas, com grande disposição para ensinar o modo de vida francês. Ambientam as mulheres islâmicas, dão noções de cidadania e leis de imigração. Dizem a elas que não podem aceitar que seus maridos a proibam de sair, nem que saiam sem seus documentos, sob o risco de serem presas, deportadas. Muitas estão em situação de asílo político. Outras acompanham seus maridos e filhos em busca de uma vida mais ocidental, mais rica. Por uma vida mais francesa. Como consomem, o que comem, que roupa vestem, onde vão. Aulas de culinária e costura. Aulas de civilização.

Os debates sobre o uso de trajes islâmicos abarcam as questões de segurança, da despersonalização cultural e até mesmo de reconhecimento do espaço público e da privacidade. Para além das discussões sobre a religião, esbarramos em uma cruzada moralista. A erotização e a sexualidade parecem estar, a todo momento, chocando-se sob a revisão dos puristas e a permissividade dos libertadores.

No maior parque da Algéria, jovens casais são proibidos de namorar. A medida foi tomada depois que a direção do Jardin d’Essai du Hamma constatou o aumento do número de casais flagrados fazendo sexo ao ar livre. A proibição parte de várias frentes de poder, religiosas e políticas. A vigília e a punição são extensões de toda forma de poder (Foucault, 1983).

Na frança, a Frente Nacional, partido de extrema-direita, apresentou para a campanha eleitoral regional na Provença-Alpes-Côte d'Azur um cartaz utilizado pela Frente Nacional de Juventude que claramente incita ao ódio racial. Com a legenda Non à l’Islamisme (Não ao Islã), a imagem contém uma mulher vestida com o niqab frente a um mapa da França preenchido com a bandeira argelina e rodeado por sete mísseis.  A partir deste ataque racista objetivo a um povo, a um estado independente e a uma parcela da sociedade francesa, o partido coloca em xeque o equilíbrio entre os diferentes grupos culturais existentes na França.

A visão ideológica do corpo oriental expressa nas imagens de corpo coberto, bem como os estereótipos e o discurso da opressão como redutor da alteridade, coferem aos cerceadores da liberdade religiosa e sexual a condição de opressores autocráticos.

A visão do corpo no Ocidente tampouco é hegemônica. A bipartição entre Ocidente e Oriente, religião e Estado, fundamentalismo e liberdade são demasiadamente abordadas e aqui, consideradas totalitárias. Em verdade, o que se encontra entre rótulos e divisão de poderes são pessoas com divergentes opiniões. Em países tropicais como o Brasil é possível encontrar quem condene as festas mundanas do carnaval, ou o hábito refrescante de ir à praia vestindo apenas um pequeno biquini, práticas censuráveis. Na França, porém, o topless, método de desnudar o peito feminino, é comum em praias e psicinas públicas. O mesmo hábito seria, como já o foi diversas vezes, condenado em praias brasileiras.

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