segunda-feira, 27 de junho de 2011

Festival Internacional de Londrina termina em noite pândega

FILO herda vinculação política, reúne trabalhos críticos e pode ser espaço regional para popularização no acesso a bens culturais.

Na terra vermelha do norte do Paraná, sagrada para o alimento, a dramaturgia é como a agricultura, levada a sério. Na noite de 10 de junho, o Festival de Londrina, que é realizado há 43 anos, iniciou seu circuito de intensa programação em um altar. Em cena, uma virgem era oferecida aos deuses pela fertilidade da terra, coisa importante por aqui. Foi a Sagração da Primavera, obra de Stravisnky e Nijinsky encenada pelo Ballet de Londrina na abertura do Festival Internacional de Londrina de 2011.
Grupo Caos e Acaso, da Fábrica de Teatro
do Oprimido na peça Dias contestados.

Neste ano o FILO reuniu espetáculos clássicos, como A megera domada, e modernos, como o trabalho de intervenção do grupo Caos e Acaso, da Fábrica de Teatro do Oprimido, que narra em Dias contestados a guerra entre Paraná e Santa Catarina. Ambas são encenadas em espaços abertos ao público, portanto gratuitos.



Realizado de 10 a 26 de junho, o festival agregou 12 companhias estrangeiras e 6 shows musicais no Cabaré do FILO. A Mostra Nacional reuniu 37 montagens de grupos de todo o Brasil, cinco delas na mostra Petrobras, categoria criada exclusivamente para destacar a maior patrocinadora do evento. Apesar de conhecido pela dramaturgia, o FILO preserva a liberdade de incluir qualquer manifestação cultural como dança, circo e pesquisa.


Sentado em frente a uma mesa abarrotada de papeis, com uma máquina calculadora de fita, daquelas usadas por contadores, o diretor do FILO, Luiz Bertiplaglia revela que o orçamento do festival para este ano é da ordem de R$1 milhão e 500 mil, mas precisa de parcerias para chegar aos R$2 milhões necessários para a realização do evento. O telefone não para de tocar. No amplo salão do segundo piso da Rua Cuiabá, uma equipe se contorce para atender a todas as demandas da última hora.


No andar de baixo, o Teatro FILO se prepara para receber uma mistura lusitana de teatro e cinema com o espetáculo Persona Ingmar Bergman. Sentada no sofá está a atriz Teresa Tavares. Enquanto Nitis Jacon não vem, o corre-corre continua nos bastidores. Bertipaglia afirma que a divisão dos espaços é uma questão técnica, baseada na ficha de exigências da trupe, como tamanho de palco e de equipe. “Tem grupos de sala e de rua”, destaca.


Sua Incelença, Ricardo III, do grupo Clowns de Shakespeare, de Natal, RN foi a peça de maior público em espaços abertos. Encenada no Zerão, parque da cidade, a peça é um clássico de William Shakespeare transportado para o universo do picadeiro de circo, dos palhaços mambembes e das carroças ciganas. “A produção de teatro de rua é excelente e muito grande no Brasil, mas a oferta é sazonal”, justifica Luiz Bertipaglia.

Grupo Clowns de Shakespeare,
apresentando a peça Sua Incelença Ricardo III 

 


Em anos anteriores, por causa da chuva, por exemplo, as peças foram transferidas dos ambientes abertos para o maior shopping da cidade. Nesta edição, 11 espetáculos foram encenados ao ar livre, permitindo a maior aproximação do público em geral com a ação artística. Os ingressos para os demais espetáculos variaram de R$7,50 (meia entrada para as peças) a R$ 50 (Cabaré musical).


Herança política
Nitis, a dama do festival, é agora presidente de honra e atua como uma espécie de porta estandarte do FILO. Conhecida por seu envolvimento político, a dramaturga acredita que “o encontro com outros países necessariamente torna este um evento político, com pessoas de países que sofrem o que nós não sofremos. Isso é uma herança da vinculação política do festival”. Em seu livro Memória e Recordação, sobre os 40 anos do Festival de Londrina, Nitis reflete: “Como orientar o trajeto sem trair o pensamento libertário da juventude e manter aceso o sonho de cada momento criativo que fluía espontâneo como suor na pele em dia de sol”.


Durante todo o mês de outubro de 1968, o ano de decreto do AI-5, o festival universitário tinha espaço em Londrina, uma primavera de pés-vermelhos baseada em Praga, um encontro inspirado na dialética de libertação dos movimentos jovens da Europa. Um concurso musical e quatro peças de teatro marcaram o início desta importante trajetória de politização a partir da cultura na região. “Talvez uma das cidades com maior atividade politica, além das capitais”, como afirma Nitis em seu livro. Idealizada pelo jornalista Délio Cesar, a primeira edição do festival apresentou montagens de Edílson Leal, Antonio Vilela de Magalhães, Augusto Boal e Ariano Suassuna.


Muito da atividade política atual está nos textos encenados. A presidente de honra afirma que o festival não nutre preconceitos político-ideológicos. “Muitos grupos fazem trabalhos sobre repressão, violência e pobreza, a situação em que estão inseridos em seu local de origem”. E complementa: “Hoje está difícil estabelecer quem é da esquerda, quem é da direita, ou quem são as pessoas que trabalham para uma verdadeira democratização da sociedade”.


Referência para novas companhias
Em 2011, o grupo de Teatro de Garagem participa pela terceira vez do festival, hoje com o espetáculo Fragmentos de manga com leite. A companhia surgiu da estrutura teatral da cidade, tendo o FILO como referência. Para ser a contra-mola, é preciso estar em espaços de pressão. Em 2008, o grupo recebeu o prêmio José Teodoro pela peça Bendita Geni, que somente em elenco mantinha 16 pessoas. Atualmente, a trupe contribui com uma importante pesquisa histórica sobre o teatro londrinense. O material se transforma agora em conteúdo para um site que será lançado em agosto. “Apesar das críticas, o festival é uma referência. Somos frutos do FILO”, afirma Danilo Lagoeiro, ator e pesquisador do grupo, que completou 5 anos em janeiro.


As atividades formativas e os projetos de extensão, realizados em escolas e comunidades dos bairros de Londrina conferem ao festival a característica expansionista de vinculação social pela arte. Contraditoriamente, o FILO mantém ares de erudição, no sentido segregador da palavra. Em uma cidade com cerca de 500 mil habitantes, há gente que, apesar de ter vivido a história do munícipio de apenas 76 anos, nunca ouviu falar do festival.


No final da década de 1980, com a redemocratização do país, o festival foi se expandindo em tamanho e recursos e teve início o processo de valorização financeira das companhias. “Foi ai que começamos a pagar cachê”, recorda Nitis Jacon. O evento passou a reunir espetáculos latino-americanos e, mais tarde, de outros continentes. Foi mais ou menos nessa época, como recorda Nitis, que o público passou a pagar ingresso. “Antigamente o festival era gratuito”, lembra a dramaturga. Sobre a decisão de limitar o público ao pagante Nitis revela: “Tivemos que fazer isso, pois as pessoas começavam a vandalizar, a destruir o prédio e o cenário gratuitamente”.


Paradoxalmente, foi também no final dos anos 1990 que começaram os Projetos de Maio, trabalhos de extensão cultural que tinham início no mês anterior à realização do FILO, levando oficinas e espetáculos à periferia da cidade. A ação tomou também escolas, o presídio local e outros espaços marginalizados. As propostas são vinculadas ao Centro de Produtores Independentes de Arte e Cultura. De acordo com Darlene Kopinski, coordenadora dos projetos, a seleção do público-alvo leva em consideração as comunidades que não optariam pela arte como meio de informação. “A ideia é ser um facilitador do acesso à cultura de modo que eles possam acompanhar um universo muito grande de possibilidades”, explica.


As três velhas, de direção e atuação de
Maria Alice Vergueiro com o Grupo Pândega
.
O FILO terminou com a peça As três velhas, de direção e atuação de Maria Alice Vergueiro com o Grupo Pândega para o drama do chileno Alejandro Jodorowsky. Maria Alice esteve surpreendente. De uma cadeira de rodas, expôs a autenticidade que já demonstrara em trabalhos anteriores, com a interpretação e exploração dos impulsos humanos em texto e presença carnal de palco. Da peça clássica, a trupe, com Luciano Chirolli e Pascoal da Conceição, fez surgir risos e a opressão das cenas explodiu em gritos, obscenidades divertidas, expressões arlequinadas. Nesta edição do festival, o espetáculo também apareceu na versão da companhia belga Ponto Zero (Trois Vieilles).


O público se despediu do FILO na esperança de ver crescer o compromisso com a politização e a democratização no acesso a bens culturais, seja na produção, seja na circulação desses conteúdos. A direção de Maria Alice deu, em noite pândega, tom final a este festival e à indagação do público: entre o erudito e o popular, para onde vai o FILO?

Nitis Jacon no escritório do Filo.
“Como orientar o trajeto sem trair o pensamento libertário da juventude e manter aceso o sonho de cada momento criativo que fluía espontâneo como suor na pele em dia de sol”. Nitis Jacon.

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