quarta-feira, 29 de junho de 2011

Latuff apresenta charges e pensamento crítico em Londrina

O chargista Carlos Latuff relatou momentos importantes de um jornalismo contundente por meio de seus desenhos.




O chargista Carlos Latuff veio hoje (29) a Londrina para apresentar seu trabalho. À tarde, ele fez uma palestra para os alunos do Mestrado em Comunicação da Universidade Estadual de Londrina. Às 19h30, o artista profere palestra aberta ao público na sala 683 do CECA - UEL com o tema Um olhar sobre a Palestina.

As charges sobre a causa palestina se transformaram em material relevante para a reflexão sobre o conflito. Os desenhos renderam a Latuff ameaças de morte, apelidos desagradáveis, tornando-o conhecido entre os envolvidos na questão.

Copyleft
Latuff é um ativista. De seus trabalhos sobre a causa palestina ele não cobra cachê.  Seu objetivo é observar o assunto sob um novo viés.

Broche/bottom free palestina
O artista chega à sala 627 do CECA bastante agitado. Usa um colete cinza cheio de bolsos e um bottom pró palestina livre. Começa o bate papo.

“Em 1990 eu comecei na imprensa sindical de esquerda porque não tinha espaço em outros veículos”. Segundo o chargista, as pessoas votam na esquerda, mas trabalham para a direita e acreditam que isso pode ser uma maneira de quebrar o sistema, ou manter o equilíbrio social.
Nos anos 1990, ficou conhecido por uma série de charges sobre o governo Zapatista, uma forma de divulgar seu trabalho e promover uma causa que ele considera relevante. “A imagem tem poder. A melhor maneira de transmitir uma mensagem de maneira clara e objetiva”, disse. “Você vai ao cinema ver um documentário sobre os meninos da favela, num ambiente climatizado, na tela do cinema a imagem bem recortada, com uma música envolvente. A pessoa se emociona. Ela sai do cinema e, se encontra com um menino de rua cheirando cola, nem se dá conta. O óbvio não é obvio, o sujeito não enxerga. A imagem põe foco em determinadas situações. A repressão tem sido grande sobre as imagens ultimamente”.

Repressão
Latuff relata uma das três vezes em que foi preso por apresentar suas charges. Em 2000, o cartunista foi para a delegacia por fazer um grafite de protesto contra a polícia. O desenho Banda Podre S/A, que critica o sistema de segurança do Estado do Rio de Janeiro, foi feito num muro a cem metros da Secretaria de Segurança Pública. “Se violência policial é uma coisa que tomo mundo conhece, porque isso não pode ser colocado num desenho? Porque a imagem tem poder”, afirmou. “A imagem incomoda muito. É só um desenho, mas tem o poder de expor uma realidade que as pessoas não tinham se dado conta”, reforçou Latuff.
O desenhista atua em duas frentes: a imprensa sindical e o ativismo social e considera a charge uma coisa muito simples. Latuff contribui com seus desenhos sobre o atual comando por meio de Junta Militar no Egito via twitter e facebook. “Essa capacidade de intervenção internacional não era fácil. Hoje, tendo o domínio de certas manhas, compreendendo o valor de certos signos, você consegue fazer intervenções globais”. Ele complementa dizendo que a internet, por enquanto, permite uma ‘certa’ liberdade. “A censura vai ser minada aos poucos, como foi com o radio”. O chargista está falando da Lei Azeredo, de censura na rede mundial. Proposto pelo Senador Eduardo Azeredo, o documento voltou à Camara em 2008 para ajustes, já que o texto polêmico sobre a restrição de acesso e retirada de conteúdos permite múltiplas interpretações.



É o artista que determina o conteúdo
Sobre a mostra de grafites expostas na galeria da Casa de Cultura da Universidade de Londrina, Latuff comenta: “As paredes grafitadas da galeria não causam nada, com exceção do deseneho de Beavis and Buthead caricaturando Cristo. Aquele era o único que mexia com tabus, ícones, mas está dentro de uma galeria. Ele tem que estar do lado de fora, na rua. Ou o artista não tem culhão”, ou não tem a sacada da importância dessa imagem ser exposta, afirmou.
Sobre a manifestação contra a violência policial em são Paulo e seu desenho que foi treasnformado em banner, Latuff revelou: “A polícia recolheu tudo. Que liberdade de expressão é essa?. Se estivéssemos na ditadura, mas é uma democracia”. E complementou dizendo que o artista precisa colocar a imagem a serviço da desconstrução desse estado de coisas. “A maior parte dos artistas, grafiteiros, cartunistas quer mostrar seu trabalho”. O que o chargista denuncia é uma pseudo-militância. “A imagem faz diferença, o poder sabe disso, o editor de jornal sabe que há direita e esquerda e sabe direitinho como manipular a imagem”. Seja a fotografia, seja o desenho, “a imagem tem a capacidade de chacoalhar a sociedade”, disse Latuff.


Depois da palestra, Latuff seguiu uma conversa com os alunos. Seguem trechos de entrevista (coletiva), com as perguntas dos participantes da plateia.

- Como lidar com o uso dos seus desenhos na grande imprensa nacional e internacional, como os publicados no jornal ?

“A Globo News solicitou as minhas charges sobre o Mubarak. Eu considerei que, de maneira geral, o canal estava fazendo um panorama mais ou menos positivo sobre o movimento de libertação do país. Mesmo que haja descontextualização, que o contexto seja ruim, em determinadas situações é melhor que mostre do que não mostre. A imagem é tão forte que mesmo em outro contexto ela comunica a intenção do artista”.

- Com quais jornais que já publicaram seu material você se identifica?

Alguns jornais na Grécia. Também fiz desenhos sobre o Bahrein e Kadafi, o vilão do momento. Jornais do Golfo, Arábia Saudita e Egito publicaram. No Brasil, trabalhei com os jornais de sindicatos, o site Opera Mundi, o jornal Brasil de Fato, o Le Monde, a Caros Amigos.  Infelizmente os jornais sindicais não disputam hegemonia, eles poderiam ser mais fortes que a imprensa regular, mas eles não se entendem. Eles querem que o veículo seja voltado para a categoria e pronto.  

- Não houve imagem da morte de Bin Laden. Você fez algumas charges sobre isso, eu queria que você comentasse.
Eu fiz três charges sobre a morte do Bin Laden. Não achei que devesse me debruçar muito sobre isso. Ele é um mito, os mitos causam esse frisson nas pessoas. Assim que anunciaram sua morte apareceu uma foto da cara dele machucada. Saiu em vários lugares. A imprensa tradicional replicou a fotografia como uma ‘prova’ de que ele estava morto. Essa fotografia parecia estranha, uns lugares com foco, outros sem. A barba tinha um corte tosco. Logo depois encontraram a foto original e a de outra pessoa morta. Não é estranho que a imprensa internacional não tenha se questionado sobre isso?

Eu fiz uma charge sobre os professores aposentados do município (Rio de Janeiro?). Esse desenho, com a cara do prefeito, foi recusado pela imprensa. Essa censura foi causada pelas relações econômicas. Quem paga a banda é que escolhe a música. A gente tem a falsa sensação de que tem a liberdade de expressão.

- É possível ver aberturas, como a autorização para as marchas, com esperança ou ceticismo?

Essa última eleição mostrou como a sociedade brasileira é conservadora. As discussões sobre o aborto são da ordem de saúde pública. Acho que a sociedade ainda é muito careta. Existe um problema a ser resolvido. Dizem que o Brasil não tem racismo. Se você não tem o problema, não tem porque lutar. O sistema de cotas, por exemplo, é a primeira medida, e a primeira medida é aceitar que o problema existe. É como se a aceitação dos homossexuais fosse acabar com a vida heterossexual. Tem comunidades na internet sobre “estupro corretivo”, que é pegar uma lésbica e mostrar o quanto é bom um “pau”! Tem que ter alguma coisa ai que incomoda essas pessoas. Eu lamento que as charges da Marcha das Vadias que eu fiz não apareçam na imprensa. Eu acho pouco provável que a imprensa de esquerda, a sindical, publique também. Eu acho essa uma discussão fundamental.

Carlos Latuff complementou, ao final da conversa, que os assuntos mais usados para suas charges na imprensa sindical são o racismo, a exploração do trabalhador, a violência contra a mulheres, modelos energéticos e contingências político-econômicas.

Um comentário:

Crônicas da Dulce Mazer disse...

obrigada pela visita e comentário! abração!