quarta-feira, 8 de junho de 2011

O pavor de ser um macho alpha

Em uma mesa de bar estão três homens e uma mulher conversando. Entra uma garota voluptuosa, elegante, alta e sorridente, passa pelo corredor apertado, esbarrando suavemente seu corpo arredondado nas pessoas aglomeradas pelo caminho. Senta-se, suavemente. Gostooooooosa, dizem em um coro baixo, pensando ser discreto seu testemunho. Um deles se levanta, dá a volta por trás da cadeira da moça e solta um vulgar “oi, meu amor”. Passado o segundo vexatório no qual a mulher delicadamente ignora o desprezível ser, ele se volta para os amigos, arqueia a sobrancelha esquerda e faz um gesto com as mãos e braços abertos como quem diz: “vai entender?”.
E diz, ao voltar para seu lugar, cheio de si: “todo machista gosta muito de mulher”. Tem razão. Por isso sempre tentou ser mais forte, mais caçador que todos os demais. Da mesma maneira, justifica-se a predileção pelo controle e a posse do corpo feminino. Parece óbvio, mas em suas palavras se esconde absorto o enigma do machão. O homem da casa tem medo!
O macho alpha está apavorado com a recusa da mulher bonita e inteligente. Está louco de raiva por ser trocado por outras mulheres homossexuais. Não compreende a guerra dos sexos no século XXI e pouco pretende a respeito. Sua segurança se perde em copos de cerveja quando um de seus amigos empreende um relacionamento sério com aspectos de casamento. Isso porque a dama eleita está bem longe de querer um matrimônio à moda antiga. Não compreende a relação extraconjugal de sua colega de trabalho.
O magno homem se recolhe ao confinamento de incompreensão com todos esses fenômenos modernos, mas fica puto mesmo quando descobre que seu irmão, aquele frangote a quem ensinou a jogar bola no campinho da esquina, é gay. Gosta de homem.  Sente atração por seus amigos. Pode até gostar de jogador de futebol.
Graças à evolução dos espaços de reflexão e de políticas públicas, as discussões sobre a sexualidade estão em voga no Brasil. Nas últimas décadas, comemoramos o avanço do cumprimento de direitos humanos com a criação da Lei Maria da Penha e do Estatuto da Infância e Adolescente.
Depois de mais de 30 anos de luta, o movimento Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT) celebra algumas conquistas. Homossexuais têm mais liberdade para denunciar situações de preconceito, violência e discriminação. Além disso, o Supremo Tribunal Federal acaba de reconhecer os casais do mesmo sexo como entidades familiares. As reservas se extendem a todas as esferas sociais. A presidente da República, Dilma Roussef, assinou em maio a convocação da II Conferência Nacional de Políticas Públicas e Direitos Humanos de LGBT, que será realizada em Brasília, no período de 15 a 18 de dezembro de 2011, com o tema "Por um país livre da pobreza e da discriminação: promovendo a cidadania LGBT".
Fora do Brasil, o artista plástico Fernando Carpaneda prepara sua mostra Queer.Punk,  que será aberta em 15 de junho, em Nova Iorque (EUA). Ele vai expor a polêmica escultura Bolsonaro's Sexy Party, que mostra o homofóbico político brasileiro fazendo sexo anal e oral com um grupo de punks. As polêmicas são fruto da fragilidade das estruturas sociais. A nova onde de fragmentação dos papeis sociais é vanguarda.
Outra polêmica circunda um macho alpha tão conhecido por sua arte futebolística, quanto por seus envolvimentos violentos dentro de campo e sexuais, fora dele. Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo (em 16 de maio), o ex-jogador de futebol Edmundo falou sobre a possível homossexualidade de seu filho Alexandre, fruto do curto relacionamento que manteve com Cristina Mortágua. Evasivo sobre a paternidade, mas de pungente opinião sobre as mulheres, Edmundo comentou o namorido: “Sempre gostei pra caramba de mulher. Até mais do que deveria. Mas quando maria-chuteira se aproveitava de mim, eu me aproveitava dela também. Acho até que, de verdade, tive pouco filho fora do casamento. Eu era recém-casado com minha ex-mulher e, durante uma noitada, engravidei a mãe do Alexandre”. Sobre a opção de Alexandre, Edmundo prefere não comentar. “Ele não me disse que é gay”.
Para desarmar os argumentos homofóbicos os estudiosos e engajados apostam na desnaturalização da heterossexualidade. Até hoje, ser heterossexual é compulsório. Os espaços para exercício da masculinidade estão diminuindo. Essa tendência reflete outra sociedade possível. Essa dinâmica, comentada em uma mesa de bar, revela que os homens sentem o que sempre foi direito dos fracos, dos sensíveis, dos afeminados. Os machos agora sentem medo.

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