sexta-feira, 15 de julho de 2011

Acodar com Chico

Acodar com Chico
"Todo dia ela faz tudo sempre igual". Esta manhã, abriu a porta e ele estava lá, sorrindo. Não trazia flores, apenas um olhar sereno. O Chico que ela sempre quis, como se fosse o único.


O jornal falava em amadurecimento. Ela já tinha ouvido e lido as críticas sobre a mulher sem orifícios. La poesía nos permite acceder a una vivencia de la libertad que en la cotidianeidad no podemos experimentar” (Carlos Herrera). Como em toda poesia, não duvidou da estrofe, nem por um segundo, jurou a moça. “Quando ela jura, não sei por que Deus ela jura, que tem coração e quando o meu coração se inflama, ela faz cinema. Ela é assim”.

O café aromatizava a sala. Sobre o jornal aberto, a moça comia um pão. Na sacada do 10º. andar um bem-te-vi apaixonado cantava. ‘Também vi’, ela respondeu. Teve medo de abrir a porta e espantar o bicho. Queria deixa-lo entrar. Teve medo de escrever e demonstrar um amor platônico-bobo-juvenil e, pior, descobrir que essa admiração toda era fruto de uma indústria cultural. “To me guardando pra quando o carnaval chegar”, disse.

Mas quem trabalha analisando e descrevendo imagens às vezes se engana de propósito. Estava lá, o Chico, em camisa verde e olhar profundo, algumas rugas e acho até que em barba por fazer. Um pouco grisalho, lindo, mas certamente com cabelos, que lhe garantiam o ar charmoso da juventude. “Parece que dizes te amo Maria”.

Abriu a porta para que entrasse o cantor e não é que o bem-te-veio? Foi chegando a passarinho, biquinho calado, soltou um pio e acordou a moça do sonho. Esse velho pássaro ainda vai dar muito samba, pensou. “Paratodos”.

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