domingo, 24 de julho de 2011

Bisbilhotar é viver os outros

O escritor mineiro  Evandro Affonso Ferreira realizou o sonho da minha avó, da minha mãe e, quem sabe, o meu desejo contido. Foi todos os dias a uma confeitaria paulistana ouvir as conversas dos outros. De soslaio, rabo de ouvido, se bem compreendi. As histórias renderam o livro Minha mãe se matou sem dizer adeus, lançado em 2010 (Ed. Record, R$ 27,90).


Bisbilhotar é viver os outros. O escritor, poeta, tradutor, crítico de arte e CPCista* Ferreira Gullar disse, em programa recente de entrevistas do Canal Brasil e em outras oportunidades, que o sentido da vida está no outro. A razão está, então, em perceber-se para o outro. Sabê-lo e e portar-se diante dele. Ações, pensamentos e outras manifestações comunicacionais contam com o ente alheio. É isso que torna o viver tão difícil.


Minha mãe costuma fazer o que minha vó provavelmente fazia. Narra o acontecimento de alguém como se fosse o dela, rico em detalhes físicos e psicológicos. Mas nunca se deu ao trabalho de perguntar os finais. Então ela supõe. Tem dois ou três finais para cada história de vida que conhece:


- Ta vendo aquele cara ali? Ele é o irmão daquela moça do mercado que namorava a amiga do João.
Ele mudou da cidade tem uns três anos. 'Deve' ter visto que a mulher não estava mais interessada. Então a mulher 'deve' ter recebido uma carta e descobriu que ele havia pego o tal ônibus na quele dia. Ela sempre foi muito desligada!
Ou então...



Cabeça de escritora, ação matemática, minha mãe não desenvolveu seu potencial para contar histórias. Mas vive pelos cantos ouvindo e imaginando os finais, como me pego fazendo às vezes. Um misto de preconceito e experiência de vida.


Então me pergunto: - quando é que vou reunir as ideias que trago e as pessoas que conheço em páginas de papel reciclado? E me volto para os afazeres diários, para a senhora perdida que encontro na rua, o amigo que teve a carteira roubada, a colega de trabalho que não confia mais no marido, os meus próprios dilemas pequeno-burgueses e me vejo como os Ferreiras, o Gullar e o Evandro, experimentando o outro. Armazenado os temas para as histórias que um dia vou contar. Os fins são apenas consequências.


 (*Centro Popular de Cultura, criado na década de 1960, cujo objetivo era produzir e divulgar uma arte popular revolucionária.)
Para saber mais sobre EvandroAffonso Ferreira e seu livro: http://autoreselivros.wordpress.com/2010/11/18/minha-mae-se-matou-sem-dizer-adeus/

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