quinta-feira, 7 de julho de 2011

Iakov Bok é o faz tudo

Iakov Bok, o trabalhador que faz tudo

Esta análise do livro O faz tudo, do norteamericano Bernard Malamud, em aproximação a textos de Karl Marx, traduzidos para a língua portuguesa. Publicada em 1966, a obra de Malamud é fascinante. Relata a vida de Iakov Bok, um judeu que ganha a vida com mascates e serviços gerais em Kiev, capital da Ucrânia, em 1911. É um período de transformações na história da Europa oriental.
Embora não tão conhecido no Brasil, Malamud é uma das grandes vozes judaicas da literatura norteamericana. Ganhador do prêmio Pulitzer e do National Book Award, o autor desenvolve um texto alinear, questionador do materialismo histórico, cujo discurso se baseia na reflexão crítica das ciências sociais, como propunha Pêcheux. Apoiando-se na questão religiosa entre cristãos e judeus como tema central do enredo, o autor critica a sociedade capitalista e o valor da liberdade individual.

Ambientação e conceitos mobilizados
Foi entre 1845 e 1847 que Marx esteve em Bruxelas com Engels, onde organizaram a teoria política, cuja influência sobreviveu ao autoritarismo moderno. Do encontro nasceu a doutrina que exerceu uma ação decisiva sobre os grupos comunistas da liga dos justos, o tratado político O manifesto do Partido Comunista, uma das mais importantes obras da modernidade. Marx e Engels viam no socialismo feudal, no utópico e no pequeno burguês, formas reacionárias de apropriação. O materialismo explica, através da evolução histórica das sociedades, desde as mais remotas, que a história dos homens é a história da luta de classes. A produção econômica e a organização social que dela resulta necessariamente para cada época da história constituem a base da história política e intelectual dessa época (Chevallier, JJ. As grandes obras políticas, 1973, p. 288).
Em linhas gerais, o autor conta a história de Iakov Bok, trabalhador acusado de assassinato de um menino cristão num ritual de “magia judaica”. A história é baseada em fatos reais do início do século XX, época dos violentos progroms, ataques maciços a grupos étnicos minoritários com a destruição simultânea de seu ambiente. Os progroms foram, mais tarde, associados ao movimento socialista e Malamud, por meio da prisão de Iakov, mostra a evolução do julgamento de presos políticos na Rússia, Polônia e Ucrânia.

O discurso de um lutador
A vida de Iakov Bok é a luta de um trabalhador. Escrito em primeira pessoa, o narrador é o próprio Iakok, que, em constante crítica social, avalia as alternativas para cada obstáculo dado. Através do pensamento do faz tudo, sobretudo no cativeiro e nos momentos de sofrimento, as formas de discurso servem à crítica aos conceitos mobilizados: sociais, históricos ou ideológicos. São levantadas questões como o conceito de povo, a identificação popular com o judaísmo e o cristianismo, a hostilidade nas relações entre integrantes de diferentes religiões, a relação de classes, o infortúnio do trabalhador e a opressão. No texto, religião e o aparelho do estado impõem a estrutura cotidiana, forjando a luta de classes. É a luz dos pensamentos do personagem que perceberemos a influência ideológica do estado.
Quanto à sua luta por liberdade, é antagonicamente no cativeiro que vai desenvolver seus pensamentos mais libertadores, a exemplo de Gramsci e de muitos intelectuais exilados. Iakov percebe que nenhum homem é livre e Malamud coloca em seu personagem toda a luta de uma sociedade oprimida pelas disputas territoriais, pela sobrevivência contra a fome e o frio. Iakov, influenciado por Baruch Spinoza, reflete sobre a essência natural dos homens, o espírito e a liberdade, concedida pela natureza divina e, numa avaliação metafísica, encontra-se ateu.

Efeitos de sentido
Antes de qualquer elaboração crítico-teorica, é preciso observar que a análise discursiva de um texto não se dá sem a constante aproximação de conceitos e ideologia. Por se tratar de um romance baseado em fatos reais, a obra caracteriza uma representação e, portanto, abre caminho para outras análises mais aprofundadas. Dessa forma, a sensação imediata ao término da leitura nada mais é que a sensação indignada de um leitor inocente. Ao cabo, o que se percebe é que não se sabe nada: é apenas o começo de toda descoberta. Iakov, por meio de seu discurso, promove uma profunda reflexão sobre temas distantes da vida cotidiana. A esfera épica atinge o drama do homem aprisionado sem chances de defesa, sem esperança. De dentro para fora. Do individual ao coletivo.

Interdiscurso e aproximação discursiva
O livro trata de um tema muito atual, porém da perspectiva de um escritor judeu, exilado nos Estados Unidos. Exilada durante a Revolução Russa, sua família vai viver nos Estados Unidos. Nascido no Brooklin, Bernand Malamud começa a escrever sobre os esforços de sua comunidade na sobrevivência em regiões distantes da sua. Essa revanche é descrita nas falas de Iakov, que percebe a relação entre minoria e opressão durante os primeiros acontecimentos fora do shtelt, a vila judia.
Enquanto homem livre, Bok é leitor de obras consideradas subversivas pela sociedade européia no início do século XX. Ele busca a elevação ao humano genérico e a desapropriação do pensamento.

“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”
(Clarice Lispector em Perto do Coração Selvagem)

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