domingo, 11 de setembro de 2011

Nilma Raquel: moda em colapso

11 de setembro
Empresto aqui o texto da colega Nilma Raquel.
Vertendo moda, Nilma reflete sob medida, com o trocadilho justo que o tema permite, sobre o desmoronamento do mundo e a mudança dos valores na sociedade ocidental (EUA e mundo pós 11 de setembro) e como a moda, como um sistema de valores efêmeros, se situa meio  ao colapso.

Moda em colapso
Até a minha adolescência, a pergunta clássica entre os mais velhos era: “Onde você estava quando John Kennedy foi assassinado?”. Bem, hoje em dia a questão mudou para “o que você estava fazendo no 11 de setembro?”, a data que virou sinônimo de um dos fatos mais assustadores da história deste nosso planeta maluco. Como toda efeméride costuma merecer avaliações em várias áreas, parei para pensar, nesta passagem dos dez anos da queda das torres gêmeas, se as mudanças provocadas por este marco divisório do mundo contemporâneo atingiram também a moda.

Claro que não podemos dizer que existe um jeito diferente de se vestir antes e depois do colapso do WTC. Mas o humor e as bases financeiras da indústria fashion certamente sentiram os reflexos do acontecimento. Vamos relembrar que quando quatro aviões foram derrubados numa ensolarada manhã de outono, os Estados Unidos estavam em meio à fervilhante Semana de Moda de Nova York, e a comoção foi tamanha que o evento foi cancelado. (A Mercedes-Benz Fashion Week está começando em Nova York, mas ainda não li nada sobre alguma menção a ser feita aos 10 anos dos atentados de 11 de setembro: http://www.mbfashionweek.com)

Bem, em se tratando de um assunto considerado supérfluo, e pior, fútil, a moda foi de cara relegada a um segundo plano. Como manter gente desfilando alegremente se o mundo estava literalmente desabando? O patrulhamento e os melindres que se seguiram também atingiram o setor. Alguns anos antes aqui e ali apareceram nas passarelas alusões ao conflito israelo-palestino, com modelos mascaradas, acessórios remetendo a homens-bomba, coisas assim. A partir de então, qualquer menção à questão era assunto espinhosíssimo.

Quando o ânimo dos estilistas que se apresentam em Nova York – que pode não ser o evento mais importante da temporada, mas certamente é o mais cool – foi retomado, os desfiles daquele ocorreram em shows isolados e o calendário se normalizou nas temporadas seguintes. Então o patriotismo e as cores da bandeira americana foram seguidamente mencionados como parte da cruzada em prol da reafirmação do orgulho nacional, maculado em 11 de setembro de 2001.

Há que se mencionar ainda o aspecto financeiro, uma vez que a crise de confiança mais a derrocada das principais companhias aéreas refletiram indiretamente na moda. As edições-chave – março e setembro – das principais revistas de moda americanas “emagreceram” a olhos vistos logo depois. Editoras entraram no vermelho e títulos foram fechados. A alternativa era apelar justamente para o aspecto lúdico da moda, o tal “alimento para o espírito” que mencionei no artigo anterior. Lembro-me, na época, de ler um relato de uma jornalista norte-americana que dizia folhear a Vogue em meio a uma confusão de emoções: sentia-se extremamente culpada por estar imergindo em tanta futilidade, mas aliviada por estar se desligando um pouco daquela realidade tão terrível.

Quando a disposição e a economia pareciam estar se reencaminhando, o baque da crise mundial de 2008 foi um novo golpe para a indústria. A criação da Fashion’s Night Out, que tem sua terceira edição este ano e acontece em diversos países, inclusive o Brasil, foi a tentativa de celebrar as compras pelo prazer de comprar, promovendo uma noite na qual quem gosta do universo fashion sai às ruas para celebrar e principalmente comprar. Junto a isso, surgem as parcerias entre estilistas e grandes lojas de departamentos, como Lanvin + H&M, Lagerfeld + Macy’s e Missoni + Target, popularizando seu design. Não sou a dona da verdade e gostaria de ouvir opiniões a respeito, mas tenho dúvidas se essa “democratização” do estilo de grandes designers, impensável há dez anos, teria acontecido se essa sequência de revezes não tivesse acontecido.

Certamente o 11 de setembro não mudou as roupas. O que se transformou foi a forma de muita gente ver o mundo, sobretudo os norte-americanos, por razões óbvias. E de certa maneira, o jeito de encarar a moda, de lidar com ela, de avaliar o que ela representa para a sociedade em seu aspecto artístico, cultural, lúdico, pode sim ter mudado. Será?

• Dê uma olhada neste link, uma prova de que a moda e sobretudo os editoriais de moda continuam espantosamente iguais não somente ao que víamos há dez anos, mas com uma linguagem que se repete há décadas! Algumas dessas fotos não parecem ter sido feitas outro dia? E, pasme, são dos anos 40: http://www.howtobearetronaut.com.

• O jornalista Vitor Angelo faz uma ótima análise daquela a quem ele chama de a diva da moda pós-11 de setembro. Confira: http://blogay.folha.blog.uol.com.br.

• E falando em popularização do design, veja só se não dá vontade de pegar um avião e ir comprar a linha especial Missoni for Target: http://www.target.com/c/Missoni e http://fashionista.com.

Nilma Raquel é jornalista, pós-graduada em Jornalismo Cultural pela PUC-SP e atuou durante boa parte da carreira em São Paulo. Já trabalhou em jornal, rádio, revista e TV, com passagem pela Rádio Eldorado de São Paulo e colaborações para revistas de moda e beleza como Estilo, Elle e Gloss, além da Veja, Fluir e o jornal O Estado de S. Paulo. Foi produtora e apresentadora na Furb TV, em Blumenau. Atua como jornalista freelancer e é aluna especial do Mestrado em Comunicação da Universidade Estadual de Londrina, PR. Escreveu este artigo para o Portal MidiaModa: http://www.midiamoda.com.br/noticias/vermais/categoria/colunistas/noticia/nilma-raquel-moda-em-colapso

Um comentário:

Nilma Raquel disse...

Querida, agradeço mais uma vez a honra de ocupar este espaço.
Beijos e sucesso!