quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Quando alguém se propõe a falar de literatura

Quando alguém se propõe a falar, em vez de escrever...

O Sesc Paraná promove esta semana o Ciclo de Autores de outubro com o tema Conexões Literárias, nas cidades de Londrina (ontem, 18/11), Paranavaí (19), Umuarama (20), Curitiba (25), Ponta Grossa (26), e Paranaguá (27). Nesta edição, participam os escritores Vitor Ramil e Ronaldo Bressane. Ontem, em Londrina, os dois autores falaram da importância de transitar e estabelecer diálogos entre as diferentes artes. 

Cantor, compositor e escritor, o gaúcho Vitor Ramil estudou música, como seus irmãos, desde muito cedo no conservatório da cidade de Pelotas. Ainda na adolescência, ganhou concurso de contos com uma ficção sobre chocolates, escreveu músicas aos catorze anos e aos dezoito, lançou seu primeiro disco, com referências a Fernando Pessoa. Estrela, Estrela teve participação de músicos e arranjadores como Egberto Gismonti, Wagner Tiso e Luis Avellar.

Estrela, Estrela
Vitor Ramil
Estrela, estrela
Como ser assim
Tão só, tão só
E nunca sofrer
Brilhar, brilhar
Quase sem querer
Deixar, deixar
Ser o que se é
No corpo nu
Da constelação
Estás, estás
Sobre uma das mãos
E vais e vens
Como um lampião
Ao vento frio
De um lugar qualquer
É bom saber
Que és parte de mim
Assim como és
Parte das manhãs
Melhor, melhor
É poder gozar
Da paz, da paz
Que trazes aqui
Eu canto, eu canto
Por poder te ver
No céu, no céu
Como um balão
Eu canto e sei
Que também me vês
Aqui, aqui
Com essa canção

Autores e ideias

O projeto Autores e Ideias do Sesc promove o encontro entre escritores de diferentes pensamentos e também entre eles e o público. Ao apresentar Ramil e Bressane, coloca-se em questão a multidisciplinaridade da arte e como ela pode contribuir para o desenvolvimento da linguagem. Bressane é jornalista, publicitário, editor da revista Alpha, a nova edição masculina do grupo Abril. Estudou com Gilson Rampazzo (http://www.museusegall.org.br/mlsItem.asp?sSume=1&sItem=326) a oficina literária, um dos estímulos que o fizeram transitar da propaganda, ao jornalismo e à ficção: “É como se eu fosse uma espécie de ator. Cada uma dessas manifestações é que molda a minha personalidade”.  Uma das peripécias do escritor é reunir em apenas uma obra, ainda em construção, cerca de 50 personagens, incluindo um orangotango albino revolucionário. “O que mantenho nos romances é a característica de buscar o outro dispersivamente”. 


A imaginação é mais importante que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação envolve o mundo.

Essa é uma máxima que costuma ser atribuída a Albert Einstein. Ramil também começou as faculdades de jornalismo e regência e não as concluiu e comenta: “Me sinto um pouco a vontade para viver a filosofia de Einstein em que a criatividade supera o conhecimento”, disse. Parece que no caso de Ramil a univervivência superou a universidade. O escritor, que geralmente viaja para divulgar sua música, lembra que encontros com o de ontem são raros. “A literatura é uma viagem interna”, disse o autor que demorou oito anos para escrever seus dois primeiros livros: A estética do frio e Satolep.
Quando alguém se propõe a falar, em vez de escrever, corre o risco de expor-se, de encantar ou de produzir o efeito contrário. Em noite de dupla multi-arte, a arte de Vitor Ramil canta, encanta e desmonta quem quer que  queria falar de algo mais.

video

Deixando o Pago
Vitor Ramil

Alcei a perna no pingo
E saí sem rumo certo
Olhei o pampa deserto
E o céu fincado no chão
Troquei as rédeas de mão
Mudei o pala de braço
E vi a lua no espaço
Clareando todo o rincão

E a trotezito no mais
Fui aumentando a distância
Deixar o rancho da infância
Coberto pela neblina
Nunca pensei que minha sina
Fosse andar longe do pago
E trago na boca o amargo
Dum doce beijo de china

Sempre gostei da morena
É a minha cor predileta
Da carreira em cancha reta
Dum truco numa carona
Dum churrasco de mamona
Na sombra do arvoredo
Onde se oculta o segredo
Num teclado de cordeona

Cruzo a última cancela
Do campo pro corredor
E sinto um perfume de flor
Que brotou na primavera.
À noite, linda que era,
Banhada pelo luar
Tive ganas de chorar
Ao ver meu rancho tapera

Como é linda a liberdade
Sobre o lombo do cavalo
E ouvir o canto do galo
Anunciando a madrugada
Dormir na beira da estrada
Num sono largo e sereno
E ver que o mundo é pequeno
E que a vida não vale nada

O pingo tranqueava largo
Na direção de um bolicho
Onde se ouvia o cochicho
De uma cordeona acordada
Era linda a madrugada
A estrela d'alva saía
No rastro das três marias
Na volta grande da estrada

Era um baile, um casamento
Quem sabe algum batizado
Eu não era convidado
Mas tava ali de cruzada
Bolicho em beira de estrada
Sempre tem um índio vago
Cachaça pra tomar um trago
Carpeta pra uma carteada

Falam muito no destino
Até nem sei se acredito
Eu fui criado solito
Mas sempre bem prevenido
Índio do queixo torcido
Que se amansou na experiência
Eu vou voltar pra querência
Lugar onde fui parido

Em tempo

Ronaldo Bressame também fez o enorme favor de nos despertar para um importante movimento latino americano literário ficcional: El portunhol selvagen!
Leia a matéria de jornalismo ficcional sobre o Encuentro Mundial del Portunhol Selvagem, realizado em Asunción, dezembro de 2007. Trata-se da primeira reportagem em portunhol publicada no país [segundo Bressame, em 136 anos de Estadón, nunca uma matéria tinha saído com tantas palabras em otra lengua].
http://impostor.wordpress.com/tag/portunhol-selvagem/

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