segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Executável papel masculino. E de todos nós!

Como se não bastassem as tentativas de se esquivar de outros temas de interesse público, os jornais fazem o papel do benfeitor ideológico também nas questões de gênero. Na tentativa de entender a manchete “Uma executiva improvável chega ao comando da GE Brasil”, leio uma matéria publicada hoje no diário O Estado de S. Paulo, um mergulho na imparcialidade. O texto chega a ser animador no início, mas logo assume seu trabalho de destacar o esforço das mulheres para alcançar os “espaços masculinos da sociedade”. Ah, é? E quem define tais condições?


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Adriana Machado, formada em Ciência Política na UNB, foi escolhida para chefiar a GE Brasil. Até então, legendas e subtítulos da matéria destacavam a improbabilidade de uma cientista política aceder a tal cargo. No entanto, o texto descamba, a lista das “principais executivas do país” aparece (Luiza, Donna, Grace e Regina) e o tema da formação da executiva vai margeando a notícia. A matéria revela que apenas 11% dos cargos de presidência de empresas no Brasil são ocupados por mulheres. E fica nisso. 

Ela é mãe de dois, organizou uma rede de mulheres na gestão de relações governamentais que hoje tem 50 partidárias entre 25 e 50 anos. Louvável iniciativa. A união entre pares deveria ser mais amplamente estimulada. Em relação ao texto, Adriana bem que poderia ter reforçado o fio da meada (de fio, aliás, a gente entende, ou deveria, como pensam os de casa), apresentando mais de seus relatos sobre como a relação dela com as funcionárias dos outros estratos está mudando. Adriana está se convertendo em uma representante social no mundo no alto escalão. A pauta se converte, para minha surpresa, na ascensão feminina aos cargos “naturalmente” masculinos.

Novamente

É fato que o jornal apresenta os baixos índices de participação da mulher no setor executivo. No entanto argumenta: “a executiva faz parte de um universo que vem aumento nos últimos anos, mas ainda é tímido no mundo corporativo”. Aumentando a passos de pagador de promessas em procissão. Poder-se-ia extirpar o corporativo da frase e, quem sabe, substituí-lo por “do trabalho reconhecido”, ou “das profissões em geral”, ou ainda “da igualdade entre trabalhadores e trabalhadoras”.

A exclusão não é “mérito” das mulheres que ficaram em casa cuidando dos filhos, varrendo o chão ou cosendo botões e rasgos de camisa. Nem é própria daquelas que optaram por profissões “estritamente femininas” (como secretárias, professoras, enfermeiras e outras), pois podiam “ser tudo o que quisessem”, desde que respeitassem a “soberania” masculina, cultural, política e econômica. Tampouco faz jus às mulheres que se esforçaram por toda a vida para estudar, trabalhar e serem “reconhecidas”, que chegam a suas casas tarde, impossibilitadas de acompanhar o crescimento de seus filhos, cansadas e ainda tem que assumir trabalhos domésticos invisíveis. Ou ainda, a exclusão não é defeito daquela mulher que, aproveitando as oportunidades de trabalho e estudo, dedicou-se a uma carreira e atingiu “níveis inimagináveis” aos altos executivos deste país e que, contudo, deve (suposições, car@s, suposições!) ter recebido uma proposta salarial menor, ou algum desconto qualquer por sua natureza feminina “incompatível” com o espaço público. 

Ainda que esse não seja o caso aqui, que essa suposição seja refutável, Adriana é uma em um país com mais de 97 milhões de mulheres, algumas até sonhando com a igualdade de condições, oportunidades e obrigações entre homens e mulheres. Essas histórias deveriam estar todos os dias nos jornais, mas não apresentadas como um feito surpreendente. Viva! Mais uma mulher no poder!
Essas histórias deveriam mostrar o quanto esse país ainda é machista e desigual. É claro que o jornal reflete nossa sociedade. Ele reflete. Não argumenta, nem indica saídas possíveis. Apenas reflete. Ele é imparcial!

Para quem ficou curios@, o texto, de acordo com os padrões ideológicos dos bons jornais brasileiros, foi muito bem escrito por Catia Luz. Não o reproduzo aqui, mas fica o link:

Foto: Dulce Mazer. Londrina, 2010.

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