segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A urgência do feminismo


Carmen Silva escrevia no ano de 1963: “Não é necessária muita perspicácia para perceber sintomas de insatisfação nas mulheres de hoje”. Em seu artigo na coluna A Arte de Ser Mulher da revista Cláudia, Carmen apontava as causas do descontentamento feminino, no ano em que Betty Friedan publicava A mística feminina. Carmen é um ícone no jornalismo feminino e muito contribuiu para a divulgação de ideais revolucionários para as relações entre sexos e gêneros.

Diferente do que definia Carmen, quase 50 anos depois, é preciso muita perspicácia para perceber as insatisfações femininas e observar que elas não são muito diferentes do que se esperava na década de 60. As necessidades são mais das mesmas, mascaradas em uma naturalização da igualdade de direitos, deveres e oportunidades, próprios de uma época “pós-moderna” e de uma sociedade neo-liberal. Herança dos ideais de liberdade e igualdade, a responsabilização individual chega a seu extremo no início do século XXI.

Se a mulher é divorciada e tem filhos, dois empregos e mais anos de escolaridade recebendo por eles metade do salário, é por seu único desejo e culpa. Se não tem sucesso profissional, é porque não aproveitou as oportunidades. Se é bonita, é explorada comercialmente. Se feia, perde o lugar ao sol na fogueira das vaidades. É negligenciada nas entrevistas de trabalho, nos postos de atendimento. Serve ao propósito de produzir crianças saudáveis, trabalhadoras. Se jovem, é explorada sexualmente e compete na cultura androcentrica para seduzir e valorizar seus atributos físicos. Se madura, é condenada ao desrespeito, à negligência de um sistema de saúde precário e a uma aposentadoria rudimentar.

Qual mulher nunca se questionou pela dupla ou tripla jornada de trabalho? “Eu tenho raiva da mulher que queimou o sutiã”. Que feminista não ouviu esta frase? Em 1968, as manifestantes do Movimento de Liberação das Mulheres simularam a queima de sutiã, sapatos de salto e outros apetrechos em Atlantic City, no Atlantic City Convention Hall, onde era realizado o concurso “Miss América”, a fim de simbolizar o fim da opressão da beleza obrigatória, do comportamento contido condizente a uma senhorita.

Quando interrogada sobre o assédio sexual no ambiente de trabalho, a alta executiva responde: “Eu soube me esquivar”. Então, cabe mais uma vez, à mulher a responsabilidade pela sua “inferioridade”, pela falta de habilidade em lidar com situações constrangedoras, de se esquivar de investidas sexuais no espaço “profissional”. Afinal de contas, no século 21 as mulheres podem fazer tudo o que quiserem. Tem direitos iguais aos dos homens e não precisam de apoios ou ações afirmativas, não é mesmo? (A ironia não é uma das expressões mais facilmente compreensíveis no âmbito da literatura).

Contrariando as aspirações de Carmen, as mulheres predestinadas continuam a ter seus espaços preconcebidos em vidas pré-fabricadas. No entanto, com o desenvolvimento de uma economia neo-liberal, algumas mulheres tem mais opções de vidas em seu guarda-roupas. O fato é que esse feminismo das diferenças está baseado também nas distinções entre classes, matizando o que pode ser o grupo de mulheres de intensas variações cromáticas. Isso pode ser notado no exercício diário e doméstico de relação entre empregadas e babás e suas “patroas”.

Como Teresa de Lauretis (1992) afirmou, a identidade de uma mulher é produto de sua própria interpretação e da reconstrução que faz de sua história, permeada pelo contexto cultural discursivo ao qual tem acesso. A fragmentação das identidades femininas e a relativização das necessidades de mudança, não somente baseadas na divisão sexual da sociedade, acabam por naturalizar uma máxima de igualdade que na vida cotidiana é inexistente. Vem daí a urgência de se proclamar um feminismo novo, por algo que não está morto, pronto e acabado. Pelo fim da sociedade do “Poder sobre”, disputado e conquistado à força. O poder sobre, a primeira classe de poder, é espaço de diferença, em que o ganho de um significa a perda de outro. Em geral, quando se fala em relações de poder se pensa neste tipo. Os demais tipos de poder: para, com e de dentro atuam como um incremento ao poder total disponível.

Fazemos do feminismo um espaço onde mulheres e homens lutam pela recusa de um colonialismo social, em que empoderamento e empoderar assinalam ações e pressupõem que os sujeitos se convertem em agentes ativos, como resultado de um acionamento, que varia de acordo com cada situação concreta (León, 2000, p. 192). É preciso que as mulheres mudem a imagem de si mesmas, a crença em seus direitos e capacidades e desafiem os sentimentos de inferioridade (León,2000, p. 203-204), não se transformando apenas em jogadoras. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” (Camões). Não somente sob a ótica reformista de alternância de poder, mas de um novo poder. O Poder Com, de Dentro.

Londrina, 06 de agosto de 2012.

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