quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Assédio sexual nas ruas



 O texto contém palavras de baixo calão e conteúdo erótico.


Republico este texto traduzido e retirado do site JEZEBEL, do UOL (confesso que não o conhecia). Já aviso que é verdadeiro demais para os fracos. Repleto de palavras chulas, como aquelas que ouvimos nas ruas, o texto foi escrito por uma atriz pornô, mas bem que poderia ter sido rascunhado por mim ou por você.

A reificação do corpo já é pérfida, um desserviço à mulher. A mercantilização e a exploração corporal para o trabalho só reforçam a necessidade de mudanças estruturais, radicais, no sentido de cortar pela raiz (para usar o termo que aprendi a defender com minha professora, Cassia Carloto). Mas é preciso compreender como funciona o mundo do tudo-se-compra-e-tudo-se-vende.

Para saber mais sobre a Economia do Sexo e da Sexualidade, indico a leitura de Gayle Rubin, O tráfico de Mulheres: notas sobre a Economia Política do Sexo (S.O.S. Corpo, 1993). 

Sobre a construção das relações baseada na diferença sexual, a dica é ler o capítulo de Daniele Kergoat, Relações sociais de sexo e divisão sexual do trabalho  (clique no link para ler. Publicado em “Gênero e Saúde” - org. Marta Julia Marques Lopes, Dagmar Estermann Meyer e Vera Regina Waldow. Ed. Artes Médicas – 1996. Republicado em http://ofensivammm.blogspot.com.br) .

Ah, só mais uma coisa antes da leitura. Saibam, pais e mães, que a sua menina provavelmente não vai contar se uma coisa assim acontecer. Afinal, como a maior parte da população, elas entendem que os homens são naturalmente predispostos para o sexo (selvagem e desenfreado) e as mulheres estão constantemente estimulando a sexualidade masculina.

"Assédio nas ruas não é uma ocorrência rara ou isolada. Não acontece só no seu país. Não acontece só com jovens meninas ou mulheres consideradas bonitas pela unanimidade. Não acontece só no transporte público ou em bairros pobres."

ASSÉDIO SEXUAL


Eu sou uma atriz pornô e vou e chutar o saco se você me assediar

POR - * 11 SET, 2012 - 12:03
*Stoya é uma artista adulta da Digital Playground desde 2008. Ela vive em Nova York e é conhecida por escrever sobre suas opiniões e sua vulva na internet. 
 
Eu consigo me lembrar de toda vez que alguém me tocou de forma inapropriada em uma convenção ou em uma exposição. Meu primeiro ano trabalhando na Venus Fair, em Berlim, teve um cara que enfiou dois dedos pela minha calcinha, dentro da minha vagina. Foi muito rápido, como se ele estivesse ali parado e de repente eu tivesse que entender como minha calcinha tinha ido parar no meu útero. Teve um cara no Texas que apertou minha bunda de um jeito bruto enquanto tirava uma foto e depois riu de como eu “guinchei como um porco”. Sério. Eu fiquei meio desapontada com o quão fiel ao estereótipo ele era. No AVN desse ano, um cara me puxou pelo braço enquanto eu saía do elevador em direção à cabine da Digital Playground. Ele só soltou quando eu dei um soco nas bolas dele. Há uma média de três pessoas por evento que tentam fazer aquela aproximação sutil descendo a mão pelas minhas costas quando me posiciono ao lado deles para tirar uma foto. Cada um deles pede desculpas quando eu gentilmente volto a mão deles para onde ela deve ficar e os lembro de que não sou uma boneca inflável.
O parágrafo acima não é absolutamente nada, NADA, se comparado ao que é ser uma mulher andando em público à luz do dia. Com o cabelo sujo preso em um coque, sem maquiagem e vestindo roupas largadas. Usando fones de ouvido, sentada em um café ou no metrô com a cara enfiada num livro, ou falando ao telefone.
Homens já me seguiram na rua me cutucando numa tentativa de, imagino eu, chamar minha atenção. Homens já puxaram os fios do meu fone de ouvido e arrancaram eles das minhas orelhas. Várias vezes. Homens já agarraram partes do meu corpo, meu casaco e a alça da minha bolsa. Duas vezes, enquanto eu transportava minha Lyra (um aro de metal/aparato circense com o qual eu faço malabarismos aéreos), eles agarraram o aro e se negaram a soltar até eu ameaçar chutá-los. Eles já me encurralaram em vagões vazios de metro, seguiram-me por quarteirões e ficaram parados por um tempão em qualquer loja que eu entrasse. Eles param seus carros no meio da faixa de pedestre para ficar pasmando e gritando coisas para mim. Há alguns anos, na Filadélfia, um cara foi de casa em casa dos meus vizinhos perguntando se eles conheciam uma moça de cabelo azul que vivia por ali, porque ele queria devolver seu celular. Felizmente meus vizinhos eram espertos demais para caírem nesse truque.
Eles falam que eu tenho uma bunda boa, peitos bonitos, um vestido realmente lindo. Eles falam que eu serei a futura esposa deles, ou que eu ficaria bem com o pau deles na minha boca. Eles tentam (e às vezes conseguem) tirar fotos do meu decote. Eles pedem meu telefone, meu endereço, perguntam por que eu não estou sorrindo, por que meu namorado me deixa passear sozinha. Aí eles perguntam por que eu estou agindo feito uma cadela, se minha xoxota é feita de gelo. E eles dizem que nunca fazem isso, como se eu, de alguma forma, tivesse os incitado a se comportar mal e agora mereço esse tratamento. Eles dizem que só estão se divertindo, tentando me elogiar. Muito frequentemente eles se tornam agressivos, entrando numa rápida e audível Síndrome de Tourette — entoando um cântico cuja letra é composta de vaca-piranha-biscate-puta.
Antes de você vir me dizer que tudo isso acontece porque eu tiro a roupa para viver, deixa eu te contar que isso começou muito antes de eu fazer 18 anos. Deixa eu te contar que toda mulher que eu conheço tem pelo menos uma história horrível de assédio na rua e um outro monte de histórias que são meramente ofensivas ou irritantes. Deixa eu te lembrar que em uma sala com fãs de pornografia, que realmente já me viram com um pinto na boca ou que podem comprar uma réplica da minha vagina numa lata ou numa caixa, eu sou tratada com mais respeito do que quando estou andando na rua.
Nas últimas semanas, as mulheres parecem estar compartilhando suas experiências de assédio sexual em todos os lugares. Foi o que me convenceu a compartilhar as minhas. Como Jen Bennett disse no Twitter, há algo no ar. Devia mesmo estar no ar. Falar sobre o assunto é o único jeito de ajudar as pessoas a entender que isso é um problema. Dividir nossos sentimentos é como dizemos ao outro que ele não está sozinho. Discussões abertas geram consciência de coisas como a Slutwalk e a Hollaback.
Assédio nas ruas não é uma ocorrência rara ou isolada. Não acontece só no seu país. Não acontece só com jovens meninas ou mulheres consideradas bonitas pela unanimidade. Não acontece só no transporte público ou em bairros pobres.
Nós não precisamos andar acompanhadas de um cachorro bravo chamado Funster para nos proteger. Nós não devemos carregar spray de pimenta ou um estilete, esperando poder usá-los apropriadamente se necessário, ou investir em horas de treinamento de autodefesa (algo para qual muitas mulheres não tem tempo ou dinheiro). Nós não devemos viajar em bando para nos sentirmos seguras (novamente, algo que nem sempre é possível).
Homens tem se justificado dizendo que querem se divorciar de seu gênero. Que eles não percebiam, até nós começarmos a contar nossas histórias em massa, o que é ser uma mulher. Que eles gostariam de poder fazer algo a respeito. Que eles se arrependem pela forma que outros homens tratam as pessoas. Homens não deviam ter que se sentir na obrigação de se desculpar em nome do gênero, ou sentir vergonha de ser macho. A menos que eles sejam um dos que praticam o assédio, eu não acho que eles deviam se desculpar.
Mas há coisas que podem ser feitas. Quando alguém que você conhece começa um comportamento inapropriado de assédio com uma mulher, diga que não acha isso legal. Tipo: “Na real, aquela mulher tem o direito de estar brava quando você começou a persegui-la. Quando ela te chamou de pervertido, ela usou o melhor termo” ou “Ei, essa história aí de botar o pau na cara de uma mina bêbada numa festa quando ela claramente não estava a fim mas estava passada demais pra te afastar, isso não é nada legal, cara”. Ensine todo homem* moldável (irmãos, amigos, filhos) que tratar mulheres (humanas) com respeito é a coisa certa a se fazer. Não transe com babacas. Não os chupe, não bata uma punheta, não dê seu telefone. Se você ouvir uma mulher pedindo a um homem para deixá-la em paz ou avisando que ele está se masturbando na estação de metrô, ouça seu apelo. Diga “Isso não é legal. Isso não é ok. Nós sabemos o que você está fazendo e isso é inaceitável”.
*Estou focando nos homens aqui porque eu nunca ouvi ou vivi um caso de assédio feito por uma mulher. Posso estar desinformada. Posso. É possível.

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