quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Budão On The Road

Dulce Mazer


Quando estiver escrevendo as memórias de um astro do rock eu provavelmente não vou pautar uma linha sobre esta noite. Quando estiver pensando em contar a trajetória beatnik pós moderna de um dos maiores músicos da geração hiper-perdida e midiática, da qual excluo nosso rock star real, que em carne, osso e cachos bem modelados percorre estradas da Europa e da América com sua grávida e fantástica esposa, para algo que perceberemos mais adiante, é inevitável, então eu terei levado em conta que essa é uma situação transitória, adversa, baseada em fatores que eu desconheço e jamais revelarei uma linha sequer sobre os fatos que imagino agora. Por que os fatos não existem, meu amigo. 

O nosso querido hermano Budão* , que em algumas horas estará voando para a capital da música para gravar aquela que será a masterpiece de sua carreira, esteve nesta casa. Deitou em nossa cama e, na manhã seguinte, dobrou as toalhas, arrumou os lençóis, puxou a colcha delicadamente, deixando para trás o ambiente impecável e caseiro que oferecemos para seu repouso. Tomou um gole de alguma coisa branca, que presumo ser leite, e saiu sem fazer qualquer ruído. Pelas sete horas, nos levantamos para acordá-lo, mas ele não estava mais conosco. 

O mainstream da vida em que se encontra esse tranqüilo músico já foi abarrotado de bêbados e mulheres, artistas voláteis e poetas santificados. Agora o saltimbanco arruma as camas onde dorme. De um casal improvável, um cachorro de rua e uma delicada professora de música, singela na sua genialidade, harmoniosa, ainda ouço a voz de Puka soprando em meus ouvidos cansados do barulho horrível do trânsito que entra por essa maldita janela, surge um novo son. Ainda muito curiosa pelo que estão gravando, posso imaginar a interferência callejera de Budão na sintonia clássica de Puka, violentamente, ele distorce cada nota perfeita para transformá-la em algo mais. Segura, ela devolve à nota o fio uniforme de leveza e eternidade. Assim, lutando com febre e chuva, os dois amantes vão compondo o que pode ser o melhor disco da banda, sem dúvida, algo de novo no Reino da Dinamarca, na República Federal da Alemanha, na Monarquia Constitucional da Noruega, no Reino Unido, podendo chegar por aqui, quem sabe logo, com um certo atraso tecnológico, típico de um período em que se acredita que o acesso aos meios é democrático. 

Mas de uma coisa nós podemos ter certeza: a globalização veio mais tarde acelerar o casamento da música com a esperteza, carregando um boliviano-paulistano comprido aos países nórdicos, sabe-se lá como e por que, a balançar em torres de shows do roqueiros internacionais, a pedir abrigo a uma garota norueguesa do coração mágico e do cabelo vermelho. A permitir que ela aceitasse esse cão, brilhante e vadio.

Eu não quero propor uma solução para o caso, porque os casos, meu amigo, em geral se solucionam por obra do destino. Mas eu preciso alertá-lo para o pior, ou o melhor que poderemos ter. Nós precisamos pensar em como terá sido aquela última noite. A última ceia, a penúltima, em verdade, meu amigo, por que nosso camarada ainda comeu um prato de brigadeirão antes de se despedir, despir-se e se deitar. De qualquer maneira, esses momentos com ele podem ser determinantes em nossas vidas. Não posso dizer como, mas tenho um forte pressentimento e acho que devemos guardar as lembranças desta noite, que para a grande massa, nunca terá acontecido. Por que alguma coisa importante deve acontecer quando Budão pisar o solo em Nashville.

* Os nomes das personagens foram alterados, para privá-los de situações embaraçosas.

Dulce Mazer, 27 de outubro de 2012.

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