terça-feira, 7 de maio de 2013

Letícia na janela


Letícia na janela

Ela queria o mundo. Eu, um café e uma boa conversa. Talvez um trabalho. Mais tarde, quem sabe?

Saímos para uma promenade, flanando pela cidade gaúcha, chocando-nos em centauros pilchados e trabalhadores apressados.
 

Caminhamos um pouco pelo Mercado. Depois, subimos as escadas e vimos o sol se pôr no Guaíba. Letícia parou em frente à janela. Sua alma se fazia grande, como a sombra que a luz minguada projetava. Ela se despedia dos dias passados no Sul. Eu me aproximava. Sorvíamos a cidade e seus monumentos. Sob as estátuas, pessoas estáticas deitadas sob camadas de roupas ou lençóis. Na rua, há pelo menos uma pessoa desabrigada para cada prócere.  

Da escadaria de Nossa Senhora das Dores, via-se o corre da Rua dos Andradas, todo tipo de ação pré-feriado de 1º de maio. Malas rolando a caminho dos trens, bares com cadeiras escassas, pessoas espremidas nas calçadas, cafés abarrotados, trabalhadores à espera das seis badaladas, da hora de partir para os abraços, para os deveres, ao descanso e à cerveja encanada. Ela falava ardorosamente de suas lutas e deslocamentos (eu, de minhas bravatas). Descrevia suas despedidas e os portos abandonados. Falava de si, de dentro, mas com a humildade necessária, com a tez tranquila.

Subimos até os jardins da Casa de Mario Quintana, o velhinho, como ela dizia. O antigo hotel Magestic guardava segredos, pontas de cigarros e passagens ocultas. Pulamos uma janela e adentramos um jardim proibido. Leticia falava de amor.

Cruzamos a esquina da rua Caldas Júnior, em frente ao Correio do Povo. Caminhamos pela Praça da Alfândega, trafegamos pela Pedra entre os velhos ocupados com seus negócios aposentados. Hoje em dia os negócios são feitos a outra moda. Falavam ao telefone, abraçados às esculturas de Mário Quintana e Carlos Drummond de Andrade.

Ficamos ali alguns minutos. Em todo o caminho, parávamos e, enquanto conversávamos, nos entreolhávamos em silêncios demorados, mas compreensivos. Diziam mais do que toda a conversa fiada que eu havia escutado nas últimas semanas.

Ali na praça, esperávamos pelas putas, mas vimos apenas gente apressada e filas no McDonald´s. Entramos no antigo Banco Nacional do Commercio, hoje o centro Santander Cultural. De lá, assistimos à transformação da cidade e seu entorno, com painéis mentais que não poderiam ser expostos nas paredes. Em minha cabeça, cada vidro colorido mostrava um pouco da vida da cidade, desde a chegada açoriana, dos tempos da venda de escravos, aos dias de luta e combates violentos entre o povo e seus militares. Até mesmo os tempos de hoje, da massa negra ignorada. A mesma massa negra que era sovada nas escadas das Dores.

De longe, vimos a escada Caracol, proibida em dias de cinza - A exposição acabou, disse a recepcionista. Mas a escada permanecia exposta em um varal de nãos. Do elevador podíamos vê-la. Descia, contorcia-se para o infinito. Para tudo o que Letícia e eu não vivêramos. Para tudo o que ainda viria. Cada uma em sua direção.