segunda-feira, 30 de setembro de 2013

SEXUALIDADE, PODER E FEMINILIDADE NO AUDIOVISUAL

SEXUALIDADE, PODER E FEMINILIDADE NO AUDIOVISUAL: TRÊS ABORDAGENS DIALÉTICAS

Recentemente, escrevi um artigo para o Dossiê #14 Questões de Gênero e Sexualidade no Audiovisual da Revista RUA -  Revista Universitária do Audiovisual - Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
O texto aborda diferentes possibilidades de poder e sexualidade feminina a partir de novas formas de representação audiovisual, sob a ótica feminista. Aponta três diferentes situações e seus contextos: duas cenas de seriados, um nacional e outro dinamarquês; e uma cena de cinema brasileiro. O artigo analisa cenas e sequências do filme Abismo Prateado (Karim Aïnouz, Brasil, 2011/2013) e das séries televisivas Borgen ("O castelo", 2010, produzida pela TV pública dinamarquesa Danmarks Radio, veiculada em 2012 pela Globosat HD) e Força Tarefa (2009, Rede Globo).

Imagens e o feminino

Um olhar misógino cinge as imagens, fotografias e ilustrações midiáticas, signos visuais da contemporaneidade. O corpo feminino serve de alegoria às mensagens e muitas vezes a exploração da nudez e da sexualidade femininas levam ao despropósito ilustrativo, como se a feminilidade e a sexualidade da mulher fossem atributos naturais e imutáveis, não social e culturalmente construídos. A possibilidade de representações começa no âmbito da produção, porém não está ligada apenas ao interesse ideológico de produção das imagens, mas também ao caráter de recepção e compreensão das mensagens audiovisuais.

A imagem-ilustração cumpre a função de descrever, explicar e detalhar assuntos originados em um contexto, por meio de retórica visual, como a metáfora, e os símbolos. A interpretação do sentido e a decodificação estão atreladas ao repertório do receptor. Porém, observa-se que a frequência de imagens de mulheres brancas, magras, heterossexuais e jovens como o padrão social representativo da feminilidade coloca a massa de mulheres, com suas particularidades e divergências, sujeita à estetização exacerbada, padronizada, ou ainda, determinante sobre quais seriam então os tipos estéticos femininos. Uma mensagem ideológica recorrente leva a crer que não existem distintas mulheres.

Imagen da série televisiva dinamarquesa Borgen.
A negligência midiática colabora para a invisibilidade de alguns grupos sociais (CAMARGO e HOFF, 2002), determinando o que pode e o que não pode ser visto, resultando na sub-representação imagética de grupos e ações socialmente invisíveis (ELLISON, apud TOMÁS, 2009). Mas a sensibilidade interpretativa cabe ao espectador, a partir das ferramentas de compreensão e decifração que possuir.

Didi-Huberman (2010) questiona a invencível cisão do ver: o que vemos, também não nos olha? Para ele, a imagem dialética lança uma ponte entre o sensorial e o significante, compreendendo que esta seria uma imagem crítica, capaz de despertar uma leitura reveladora. Porém, nem toda “imagem é originariamente dialética, crítica” (Didi-Huberman, p. 173), afirma. Estas precisam ser adaptadas às novas formas de ver. Novos sentidos podem ser dados, segundo abordagens (ângulos, ambientes, tempos) também novas.

Benjamin (1994) acreditava na politização estética por meio da reprodutibilidade técnica e da democratização dos bens culturais. A reprodução sistemática culmina com a destruição da aura, mas dá outro sentido à produção artística, subvertendo sua função puramente estética. “Em vez de fundar-se no ritual, ela passa a fundar-se em outra práxis: a política” (BENJAMIN, 1994, p. 172).

Outra consciência somente pode ser buscada a partir das transformações materiais das relações humanas. Mas outras formas de mostrar as relações humanas podem também despertar mudanças sociais. Acedendo à lógica de Benjamin, a imagem material deve estimular a experimentação e aprendizado por meio de conceitos, estímulos visuais e mensagens ainda não percebidas, ainda que desencadeadas por uso de metáforas, evitando, assim, a excitação despropositada do observador, não contextualizada ou simples provocativa, que visa a direta sugestão de significados naturalizados. Assim, destacam-se três maneiras de representar imageticamente a sexualidade da mulher e suas interpretações a partir de um viés feminista, observadas no filme O Abismo Prateado (Karim Aïnouz, Brasil, 2011/2013) e nas séries televisivas Borgen ("O castelo", 2010, produzida pela TV pública dinamarquesa Danmarks Radio, veiculada em 2012 pela Globosat HD) e Força Tarefa (2009, Rede Globo).

Imagen da série televisiva Força Tarefa: Selma (Hermila Guedes) beijou Jaqueline (Fabíula Nascimento), namorada de Wilson (Murilo Benício).

A partir das teorias do feminismo e da teoria econômica do sexo, o artigo publicado na revista RUA tenta demonstrar a pluralidade de interpretações e desenvolve uma compreensão da subversão das personagens e a dialética das imagens.

Imagen do filme O Abismo Prateado (Karim Aïnouz)

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