quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Profundos elogios

Está rolando nas redes sociais um vídeo sobre mulheres que mudaram "radicalmente" seu visual e receberam elogios dos homens.


Antes de tudo, acho que passar batom vermelho e vestir roupas coladas e brilhantes está longe de ser uma mudança radical (essas se fazem por dentro). Mas me visto como uma monja e detesto que acompanhem minhas curvas, enquanto ando pelas ruas.

No vídeo, os homens foram surpreendidos por adereços e lançaram vários cumprimentos as suas estonteantes novas mulheres, aquelas que substituíram as antigas corocas amarguradas.
Os convidados do anúncio se declararam docemente apaixonados pelas companheiras. Fofos!

Mas essa é uma forma de ver o fenômeno.
O novo desperta sensações. O choque altera a percepção do cotidiano. Será que, se essas mesmas mulheres aparecem com um cartaz, ou uma camiseta com os dizeres "meu corpo é meu!" a reação teria sido a mesma? Certamente não. Precisamos pensar mais sobre os elogios que queremos.

Além disso, os elogios são importantes para todo mundo que está em um relacionamento, seja amoroso ou não. É possível/preciso elogiar um bom trabalho, um dia bonito, um atendimento simpático, uma pessoa estranha... Elogiar não é tão difícil. Difícil é reconhecer a beleza cotidiana, seja no amor, seja no relacionamento com outras pessoas.
Vivendo na contramão, será que uma mulher hoje precisa renegar o conforto de uma sapatilha e a discrição de uma camiseta bonita para receber um elogio? Precisa seguir um padrão de consumo feminino?

- Não mesmo, meu senhor!
Não que nós não tenhamos o direito de nos vestir como quisermos, de nos adornarmos de, inclusive, bancarmos nossas personagens.
Se a Anitta quer se jogar na cama fofa, com o sutiã apertado, esperando alguém jogar a camisinha na cara dela, por mim, tudo bem. Ela é livre, faz o que desejar, embora saibamos que há o lado triste da troca cultural, em que crianças e adolescentes fixam suas referências. Quando uma mulher representa um heterogêneo grupo de mulheres, sobra para o mundo pensar que eu, no interior da minha calça jeans desbotada, que completará 16 anos agora em outubro, gosto de ser sexualmente opressora, devoradora de homens e uma consumidora de lingerie com lantejoulas.

O ponto é que a criativa ferramenta da publicidade encontra com o ansioso vácuo do consumo e tudo pode levar à descoberta de um nicho. É assim que, muitas vezes, nós mulheres somos reconhecidas socialmente: um grupo consumidor! Mas enfim, essa já é outra história.
Em uma coisa, no entanto, os homens dos anúncios publicitários e comédias da vida privada têm razão. Nós mudamos muito de opinião, mas sabemos sempre o que queremos naquele exato momento.
E gosto de saber que estou bonita, isso nos faz muito bem. Mas agora estou a fim de elogios um pouco mais profundos. E você?

2 comentários:

Carla disse...

Dul, querida, difícil expressar com exatidão as palavras que me envolvem diante se suas sensibilidade para captar o que eu também, como mulher, sinto. Em resumo posso dizer uma palavra em alto e bom som: OBRIGADA por me ler! OBRIGADA por nos ler (há tantas outras que certamente falam por você nesse texto).

Reinaldo César Zanardi disse...

"Difícil é reconhecer a beleza cotidiana, seja no amor, seja no relacionamento com outras pessoas."

É bem isso caríssima Dulce. Não nos atentamos para os detalhes cotidianos. Vestimos o figurino da ocasião.

Se esperamos elogios porque mudamos a aparência significa que queremos ser belos para os outros. Se nos sentimos belos de verdade, o elogia é consequência.

Infelizmente isso não é para a publicidade que vive do estereótipo e do superficial. O problema é que costumamos nos ver refletidos nela quando ela não nos reflete. Bem feito para nós.