quarta-feira, 25 de junho de 2014

Black-Blanc-Beur (negros, brancos, árabes): uma história que líderes franceses não querem contar

Em 2008, os cidadãos franceses presenciavam um manifesto curdo pela libertação do líder separatista do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), Abdullah Ocalan, preso na Turquia. Na ocasião, alguns franceses natos, já senhores, gritavam à força dos pulmões contra os manifestantes: rentrez chez vous! (voltem para suas casas!). Para muitos, era apenas mais uma passeata que se dissiparia à francesa. Mas aquela comunidade se manifestava pacificamente pelos direitos políticos de seu representante.

Eu, estrangeira ilegal*, sentia na voz ardida de tom polido a profunda antipatia em relação aos estrangeiros. A violência verbal dirigida àquelas famílias, comunidades de trabalhadores, pessoas legalmente amparadas, não atingiria diretamente os imigrantes brancos, que falassem francês e sempre se dirigissem aos locais, donos do território, com a submissão de quem se encontra em desvantagem. 

Hoje a imprensa mundial assiste aos comentários preconceituosos do presidente de honra do partido nacionalista francês, Jean-Marie Le Pen. Nos jogos da Copa, Karim Benzema não canta a Marselhesa. Francês, de origem argelina, como é o craque Zidane (que nasceu em Marselha), o atual artilheiro francês protesta silenciosamente contra as ofensivas do hino nacional, escrito em 1792. A mesma cultura francesa, que carrega os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, vê-se mergulhada em xenofobia nesse início de século. O canto exalta a pureza do sangue francês: "Às armas, cidadãos, Formai vossos batalhões, Marchemos, marchemos! Que um sangue impuro Banhe o nosso solo!".

O Nacionalismo francês remonta à época da Revolução. Tais líderes políticos acreditam que o desemprego e a violência na terra do Camembert são resultado da imigração 'pobre e deseducada'. Le Pen e a Frente Nacional, no entanto, não representam as gerações de franceses oriundos das ex-colônias que ajudaram a erguer o país ao estatuto de bem estar social, tão criticado pelos neo-nacionalistas. Já os jogadores pertencem a essa importante camada da sociedade francesa, trabalhadores multiculturais que acreditam em sua seleção. O Nacionalismo não os representa. E que fique bem claro no silêncio de 'les bleus'.



*Para viver na França o imigrante deve portar um documento de permanência, conhecido como Carte de Sejour.

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